Siderópolis sempre acordou ao som das sirenes, dos apitos das locomotivas e adormeceu sob o suspiro das chaminés. Elas escreviam no céu, em carvão e fumaça, a rotina de um povo que aprendeu cedo a lutar. Mas, entre turnos de mina e mãos calejadas, havia noites em que a cidade se vestia de sonho. Nessas noites, o carvão cedia espaço ao cetim, e o pó da terra dava lugar ao brilho discreto dos refletores. Era quando surgiam elas, as Misses, como se fossem estrelas pousando no chão duro da nossa história.
Falar das Misses de Siderópolis é folhear um álbum guardado no fundo do armário da memória. Ao abri-lo, escapa um perfume antigo, mistura de laquê, flores naturais e esperança. Cada página traz um rosto, mas também um tempo inteiro: famílias reunidas, corações acelerados, aplausos que vinham do peito, não das mãos.
Nos anos 50, quando a cidade ainda aprendia a se olhar no espelho, surgiu Zulma Búrigo. Ela foi como a primeira flor brotando no pátio da mina, improvável, delicada e necessária. Seu caminhar abriu trilhas invisíveis, provando que, mesmo cercada de fuligem, Siderópolis sabia gerar beleza.
Vieram os anos 70, e com eles o instante em que o nome da cidade atravessou fronteiras como um sopro orgulhoso.
Marlene Carminatti não desfilou apenas vestidos; ela carregou Siderópolis nos ombros, como quem leva um estandarte invisível. Sua elegância tinha o peso da responsabilidade e a leveza de quem nasceu para representar. Quando seu nome ecoou nos palcos catarinenses, foi como se as chaminés tivessem parado por um instante, apenas para ouvir.
Ainda nessa década, Suilane Piacentine também deixou sua marca, compondo esse mosaico de beleza e presença que iluminou os anos 70 e ajudou a eternizar aquele tempo de festas, bailes e expectativas.
A década dourada se abriu como um salão iluminado. Caren Marília de Farias trouxe a sofisticação de quem entende o silêncio dos olhares. Margareth Rosane Barg fez da passarela um território sagrado, elevando não só seu nome, mas o de toda uma família e de uma geração inteira. Nos bailes do Siderópolis Clube, cada passo delas parecia marcar o compasso do coração da cidade. Eram noites longas, em que o tempo desacelerava para caber na lembrança.

Os anos 80 chegaram com o brilho intenso dos holofotes e o som firme dos aplausos. Márcia Gregório Perico surgiu como um estandarte vivo, ereta, segura, carregando numa simples faixa o orgulho coletivo de uma comunidade inteira. Logo depois, Roselane Viiano reafirmou o que já se sussurrava nos corredores e se dizia com orgulho nas mesas de bar: Siderópolis era, sim, terra de rainhas.

O tempo, esse velho minerador de memórias, avançou. Mas não apagou rastros. Já nos anos 2000, Emily Paes Fernandes surgiu como continuidade dessa linhagem, mostrando que a beleza sideropolitana atravessa gerações, muda de estilo, mas mantém a mesma essência: simplicidade, presença e identidade.

O legado mais recente ressurgiu com Pietra Travassos, em 2025, eleita Miss Santa Catarina, como se a história tivesse decidido se repetir por amor. Sua coroa não brilhou sozinha, refletiu passos antigos, costuras feitas à noite, mães em oração, pais orgulhosos em silêncio. Pietra venceu por todas aquelas que vieram antes. Naquele instante, Siderópolis inteira se levantou. Não para um baile, mas para um agradecimento coletivo ao passado.
Entre carvão e luz, fumaça e espelhos, Siderópolis aprendeu que sua maior riqueza não está apenas no que extraiu do chão, mas no que soube lapidar em sua gente. As Misses foram, e são, o reflexo mais delicado dessa lapidação.
E como toda boa memória, esta não se fecha: fica aberta como um convite. Se você lembra de mais algum nome, guarda uma fotografia esquecida numa gaveta, uma faixa amarelada pelo tempo, uma história contada em voz baixa na sala de casa, este espaço também é seu. Que outras lembranças venham, que novos nomes sejam ditos, para que o brilho das chaminés continue iluminando o passado e ensinando o futuro.
Às nossas eternas Misses, que transformaram fuligem em brilho e fizeram da memória um lugar bonito de se morar, o nosso aplauso que atravessa o tempo.
Colaboração pesquisa: Edson Luiz Sandrini e Juarez César Frassetto


